quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A agenda

É hoje. Comprou a agenda do ano, uma caneta nova pra dar sorte e até uma outra só-por-segurança, caso acabasse perdendo feito todas as outras.  Arrumou a mesa, abriu na data em que estava e olhou para a página em branco. O incômodo anual de não ter comprado a agenda antes, evitando ter dias não preenchidos no mês de janeiro, surgiu. Divagou.

Voltou a si repetindo que dessa vez teria uma agenda para lembrar-lhe desse detalhe. Talvez fosse melhor anotar agora? Mas em que data? Qual é o dia em que as pessoas anotam quando devem comprar uma nova agenda? Quando as lojas começam a fabricar a do ano seguinte? E agora? Divagou.

Melhor começar por partes, do começo. Não adianta rabiscar lá pro fim se nem iniciou sua lista do presente. Sempre pensando no futuro e fugindo do momento em que estava, era típico dela. Não mais. Dessa vez iria anotar o que deveria pensar naquele dia, o que fazer, quando fazer. Nada de pensar no depois, sem concluir o agora. Uma coisa de cada vez, esse é o novo lema a ser seguido. Talvez devesse até ser colocado como título no início da agenda.  Preencher ele em uma das páginas em branco dos dias que já foram e não vão ser usados para outra coisa. Mas aquilo não era um diário, precisaria mesmo de um título? Diário tem título? O de Bridget Jones tinha. Acho que o do carinha de Segundas Intenções tinha. Os seus da adolescência não tinham. Precisava queimar aqueles diários. Divagou.

Depois colocaria na agenda um aviso pra enterrar as vergonhas do passado, disse pra si mesma. Tirou a tampa da caneta pra anotar a primeira missão do dia, hesitou. Começar pelo dia de hoje ou pelo dia de amanhã? Já passa das quatro, talvez seja melhor ignorar o dia de hoje. Talvez o dia de hoje tenha uma única tarefa: iniciar uma agenda. Já tinha perdido uma semana procurando a agenda ideal, ficou em dúvida entre uma comum e uma mais arrumadinha. Optou pelo meio termo, já que uma era sem graça pra carregar na bolsa e a outra teria pena de riscar. Acabaria servindo como um acessório, feito a do ano anterior, que ganhara. Pensou que deveria guardar aquela agenda, pra quando os anos coincidissem os dias, só esperava que não demorasse muito. Queria muito ter usado aquela agenda quando teve a oportunidade, ela preenchia todos os requisitos. Adorava tanto aquele presente. Por que diabos foi que não o usou? Típico. Típico. Divagou.

Virou a página para o dia seguinte, caneta em mãos. Qual tarefa colocar primeiro? Melhor fazer um rascunho em um papel solto. A primeira coisa escrita não poderia ser uma rasura ou um afazer qualquer. Nem sequer tinha pensado quais eram as coisas que permaneciam com pendências em sua vida. Eram tantas. Vivia apagando elas da memória, pra não se lembrar que esqueceu novamente de fazê-las. Agora, quando precisava delas, não as tinha. Provavelmente seu cérebro, acostumado com as frustrações, achou melhor não trabalhar. Concentrou-se. De repente, lembrava-se de todas. E de umas que nem sabia que já teve. Começou a chorar de arrependimento. Divagou.

Quando viu que manchou a folha com suas lágrimas, recuperou a compostura. Algo sobre não adiantar chorar sobre a agenda derramada. O leite. Estava cansada, mas decidida. Não importava o que o relógio dizia, a hora de dormir botaria na agenda depois. Seria organizada. “Estudar”. Sim. Essa seria a primeira tarefa. Sempre existiria esse afazer, ele deveria começar todos os dias. Já ouvira por aí que ninguém nunca para de estudar, é uma constante na vida. Estudar. Mas é algo tão amplo. Estudar, mas estudar o quê? Quantas horas? O dia todo? E os outros afazeres? Em que horário? Talvez devesse ter comprado a agenda que separava as horas do dia. Mas aquela era tão sem graça. Divagou.

Acordou. É hoje. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Essa nossa vida que é também a dos outros, Antônio Prata e amores platônicos

Uma das milhares de particularidades que vieram com a internet foi a perda da sensação de que se está sozinho no mundo. Não digo na solidão, sem mulher, homem, filhos, cachorro ou algo assim. Mas naquelas dúvidas e momentos que a gente achava que eram só nossos.

Assim, não foi bem a internet que trouxe isso, é verdade. Mas ela maximizou pro mundo problemas tão locais, curiosidades que pareciam tão precisamente ligadas ao mundinho particular de cada um de nós. E eu, sabendo disso tudo, compreendendo que não sou só eu que fico de cócoras no ar pra fazer xixi em banheiro público ou que almoçava em bolinhos de feijão-arroz-farofa quando criança, ainda me espanto quando descubro alguém roubando uma vivência minha.

Estava eu, linda (nem tanto), lendo o livro novo de Antônio Prata, que eu já amava desde que ele (e eu também) era pequeno simplesmente por ser filho (e protagonista de umas das minhas adoradas crônicas) do Mário Prata e me deparo com a descrição da meia que vai descendo do calcanhar até parar de envolver o pé por completo já dentro do sapato. Causando, enquanto isso, um machucão do atrito do tênis com a perna e a tentativa, inútil, de andar com o pé estirado pra ver se a meia se segura por algum tempo mais. Quantas vezes eu passei por isso! Quantos momentos mais eu compartilho, sem saber, com outras pessoas? A gente faz parte de um clube e não sabe.

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Ainda no assunto Antonio Prata, tava eu lendo uma dedicatória fofa que Gregório Duvivier fez pra ele em sua coluna e muito me identificando também, naquilo de ser amiga platônica de alguém. Não do Antônio Prata. Assim... também, talvez. Sabe quando a gente gosta tanto de alguém distante assim, desses da lista de idolatrados, ou até daquela turma da sala que faz o mero fato de existir parecer ser o máximo, que chega a pensar “Eu acho que ele ia gostar de me conhecer. A gente pensa igual. Se me ouvissem contando uma história, aposto que todo mundo ia rir e formaríamos parcerias incríveis”. Sou eu. Amando platonicamente as pessoas. Quase todas elas.

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Eu amo platonicamente tanta gente que tem nem graça. E não sei bem se quero sair do plano hipotético, talvez a decepção de dar tudo errado seria muito grande pro meu coraçãozinho iludido.  Vai que era tudo um grande engano melhorado pela imaginação? Melhor não. Melhor amar assim, de longe. E assim eu sigo amando até o carteiro, que aos meus olhos carrega histórias e amores, e nunca contas a pagar.