Uma das milhares de
particularidades que vieram com a internet foi a perda da sensação de que se
está sozinho no mundo. Não digo na solidão, sem mulher, homem, filhos, cachorro
ou algo assim. Mas naquelas dúvidas e momentos que a gente achava que eram só
nossos.
Assim, não foi bem a internet que
trouxe isso, é verdade. Mas ela maximizou pro mundo problemas tão locais,
curiosidades que pareciam tão precisamente ligadas ao mundinho particular de
cada um de nós. E eu, sabendo disso tudo, compreendendo que não sou só eu que
fico de cócoras no ar pra fazer xixi em banheiro público ou que almoçava em bolinhos
de feijão-arroz-farofa quando criança, ainda me espanto quando descubro alguém
roubando uma vivência minha.
Estava eu, linda (nem tanto), lendo o livro novo
de Antônio Prata, que eu já amava desde que ele (e eu também) era pequeno
simplesmente por ser filho (e protagonista de umas das minhas adoradas
crônicas) do Mário Prata e me deparo com a descrição da meia que vai descendo
do calcanhar até parar de envolver o pé por completo já dentro do sapato. Causando,
enquanto isso, um machucão do atrito do tênis com a perna e a tentativa, inútil,
de andar com o pé estirado pra ver se a meia se segura por algum tempo mais. Quantas vezes eu passei por isso! Quantos
momentos mais eu compartilho, sem saber, com outras pessoas? A gente faz parte
de um clube e não sabe.
*
Ainda no assunto Antonio Prata,
tava eu lendo uma dedicatória fofa que Gregório Duvivier fez pra ele em sua
coluna e muito me identificando também, naquilo de ser amiga platônica de alguém.
Não do Antônio Prata. Assim... também, talvez. Sabe quando a gente gosta tanto
de alguém distante assim, desses da lista de idolatrados, ou até daquela turma
da sala que faz o mero fato de existir parecer ser o máximo, que chega a pensar “Eu acho que
ele ia gostar de me conhecer. A gente pensa igual. Se me ouvissem contando uma
história, aposto que todo mundo ia rir e formaríamos parcerias incríveis”. Sou
eu. Amando platonicamente as pessoas. Quase todas elas.
*
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