terça-feira, 27 de maio de 2014

PZ: As Pontes de Madison partindo corações

Na primeira vez em que assisti As Pontes de Maddison, eu lembro de ter ficado meio inconformada. Acho que com o rumo das coisas acabou me deprimindo e fazendo com que meu eu adolescente ficasse insatisfeito em ver a perpetuação de uma vida tão triste, incompleta e que deixava a desejar, como era a da personagem de Meryl Streep, Francesca.

No comecinho do filme, eu nem lembrava, a gente tem os filhos dela recebendo instruções de testamento e acabam encontrando diários relatando um momento da vida dela que desconheciam por completo, que foi quando o personagem de Clint Eastwood, Robert Kincaid, passou por sua vida. A gente vai acompanhando a história junto com os filhos e tenta entender o começo e o fim desse caso de amor. (essa parte dos filhos é mais chatinha e descartável, meio que interrompendo a magnitude toda da coisa, não sei).

A gente logo entende que foi um romance bem real e promissor, ao mesmo tempo que passageiro e duradouro. Francesca, uma dona de casa que mora sabe deus onde num interiorzinho e que tem sua vida apagada e ausente de vontades em favor de dois filhos já crescidos e seu marido. Entra em sua vida, bem avassalador, completamente encantador, exatamente no tempo em que sua família faz uma breve viagem e ela fica em casa só, o personagem de Eastwood, um fotógrafo meio perdido que procurava as tais pontes de Maddison do título. Como boa pessoa que é, e com o início de uma curiosidade que vai crescendo ao longo do filme, Francesca o ajuda a encontrar seu caminho e os dois iniciam uma amizade que vai se aprofundando rápida e naturalmente.  

É fascinante assistir à personagem de Meryl Streep, deixando transparecer uma eterna e meio que ingênua, até infantil, vontade de vivenciar, ainda que por contos, a vida daquele homem que mal conhece unida a um sentimento de culpa por, ainda que negue para ele e para si mesma, sentir-se infeliz com a vida que tem. Os olhos dela brilham a cada palavra de Eastwood, desejando desesperadamente sair daquela cidadezinha sem nada e se teletransportar para todos os lugares visitados por ele, de ter aquela liberdade, aquela falta de compromisso e obrigações com a vida. Com o tempo (que é bem curto) Francesca começa a criar outra ansiedade, agora em relação ao significado daquilo tudo e o que seria dela.

É devastadora essa história, isso que é. O filme rasga o coração da pessoa de diálogo em diálogo, destruindo ele pra todo o sempre com a cena final dos dois. As atuações tanto de Meryl Streep quanto de Clint Eastwood envolvem e convencem a cada argumento e cada sentimento destrinchado em tela. São performances sutis e naturais. Parece uma dança, dos dois, desde o momento em que ela se dá conta do que sente, ou talvez antes mesmo, durante todas as suas inseguranças e incertezas, até o finalzinho. Tem algo nos dois que tira o cliché da história, tira a melosidade, tira a ridícula perfeição de uma história de amor e a transforma no perfeito romance imperfeito. E me vejo aceitando, junto aos dois, tal romance como foi. Assim... um pouco indignada, como o meu eu adolescente. Mas conformada, convencida. Em parte. Em parte.


Título original: The Bridges of Madison County
Diretor: Clint Eastwood
Baseado no livro de Robert James Waller, Roteiro de Richard LaGravenese
Com: Clint Eastwood e Meryl Streep
IMDB diz que é um drama/romance. Umrum, basicamente.
Quote: “This kind of certainty comes but just once in a lifetime”. 
Quote2: “The old dreams were good dreams; they didn't work out, but glad I had them”.
Quote3: “I realized love won't obey our expectations, it's mystery is pure and absolute”.
Quote4: “And in that moment, everything I knew to be true about myself up until then was gone. I was acting like another woman, yet I was more myself than ever before”.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

PZ: Gigolô Americano (começoooou!)

Foi médio uma coincidência esse ser o primeiro filme do PZ (vou ter que começar a abreviar). Primeiro porque caiu mesmo na semana em que eu tava fazendo lá pro site a lista de nu frontais e, consequentemente, minha irmã me sugerindo esse filme como uma das alternativas. Só que eu não tinha visto. Cabou que esse foi o filme que caía mesmo hoje e eu decidi seguir em frente, seguindo todos os sinais da vida, como gosto de fazer.

Esse é o segundo filme que eu vejo com um Richard Gere novinho, apesar de eu já ter conhecido ele de cabelos brancos, arrancando suspiros com seu ar galã. E eu, que o amava como cavalheiro andante da prostituta vivida por Julia Roberts em Uma Linda Mulher, descubro que é ele o prostituto da vez em Gigolô Americano. Só que enquanto lá, Vivian era uma fudida, aqui Julian tem tudo do bom e do melhor, desfrutando da melhor vida possível, enquanto acompanha velhinhas na vida e na intimidade.

Eu tava pensando que o filme não ia poder durar muito, mas a trama até que se desenvolve quando a calmaria da vida dele acaba e ele tem seu nome envolvido no assassinato de uma cliente que ele foi atender. Mas o charme de Richard Gere e a história não foram suficientes pra me sustentar muito viva nesse filme. E olhe que rolou um nu lateral. Não há o que reclamar da delícia que é assistir ao personagem dele desfilar todo maravilhoso filme afora, que é algo bem recorrente durante todo o filme, mas a mulherzinha que arrumaram pra ser o par dele e a história dela com ele... é das mais batidas, apelativas e sem graças. Não tem trama suficiente, além de ela não convencer. O fim foi se apressando, a história não foi conseguindo finalizar e era o tempo todo fade out, fade out, fade out. Lembrava as pausas de Law and Order, e isso não é um elogio.


Uma tristeza que esse foi o primeiro filme oficial do Projeto Zelig, mas ao menos eu comecei, o que já é um avanço. E pelo menos eu me diverti com um Richard Gere gatinho, apesar de queeee eu tinha acabado de assistir a Praia do Futuro e foi bem mais legal e proveitoso, em todos os aspectos. 


Título original: American Gigolo
Roteiro e Direção: Paul Schrader
Com: Richard Gere, Hector Elizondo (tão novoooo! eterno coadjuva com um ar meio chique, que ele nem tem aqui. Tá, inclusive, em Uma Linda Mulher)
IMDB diz: Crime, Drama, Thriller. Eu achei uma espécie de um romance bem meia-boca, nada de drama, com um pinguinho de tensão.
Quote: "How many languages do you speak?" "Five or six". "Plus the, uh, international language?" "That's right".





domingo, 18 de maio de 2014

Projeto Zelig: Quase lá! Regras (flexíveis) do jogo.

Bom, achei o calendário com 365 dias de filmes (366 porque inclui um pro ano bissexto!) e descobri que ele não é lá o grande senhor dos filmes-que-todo-mundo-tem-que-ver. Dei uma folheada rápida, fiquei descontente e tentei voltar pra internet, a fim de achar algo similar (e acabei descobrindo que altas galeras fazem o desafio-julia-e-julie/Zelig, só que chamam de outro nome, mas tudo bem). Acabei não achando nada que me guiasse direitinho e acho que é melhor eu me manter focada no calendário de papel que eu tenho mesmo, pelo menos tenho um roteiro.

O nome dele é Nights at the Movies, page a day calendar, as indicações são do Videohound Golden Movie Retriever (?!) e o calendário é de 2004. São 10 anos de cinema ignorados, mas depois eu me atualizo de lá pra cá, já que meu maior interesse está nos clássicos antigos.

Bom, mesmo o calendário sendo um guia, fiquei na dúvida pra descobrir por onde começar. Quando fui ver o primeiro filme do ano colocado por ele, tem Homem-Aranha, de Sam Raimi, e apesar de eu realmente precisar rever e o timing ser muito lindo, já que acabei de assistir ao Espetacular Homem Aranha 2, achei uó começar por ele. Pouco Poético. Resolvi que começarei pelo meio e de vez em quando darei uma volta pro começo, pra ver se consigo completar todos eles. Sem pressa. Maratonas não tem tempo pra terminar assim e eu não tenho também o tempo de ser tão louca.

O calendário faz uma escala de filmes de uma ~latida~ (acho que pra justificar o nome Golden Movie Retriever) a 4 ossos. Eu ainda não sei se vou encarar filmes que só ganharam latidas ou meio osso, porque eu não decidi fazer um projeto-martírio. Então talvez uma das regras do jogo seja eu escolher um do começo do ano quando me deparar com um assim. Eu já vi que Escorpião Rei mesmo tá na lista e me recuso! Mas, a depender do dia, vai que eu encaro uma trasheza? O que será, será.

PS: Agora que vi! O calendário me dá dois filmes por dia, meio interligados. Bom saber.
PS2: Outra coisa que acabei de descobrir foi o site online (que parou de ser atualizado em 2011) desse Golden Movie Retriever e que tem uma lista de 100 filmes must-see. E agora? Eu odeio quando me aparecem mil decisões a serem feitas até pra algo banal! Vejo os 100 must-see ou sigo o calendário?
PS3: Vou aperfeiçoando esse projeto com o tempo, por ora decidi que PELO MENOS um must-see por semana eu devo ver. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Projeto Zelig: Ainda no aquecimento CineDureza clima de faroeste: Hombre

A vibe cinedureza não sai de nós e acabamos assistindo um road-movie-faroeste também antigão, Hombre. É com um --- novinho e super gatinho – Paul Newman silencioso e reservado, que já mostra a que veio no comecinho do filme, quando bota em seu devido lugar uns caubóis (?) imbecis que tão fazendo bullying em dois índios amigos dele.

A história não é cheia de rodeios e plots não. Começamos compreendendo que John Russel (Newman) morava com os índios, quando recebeu a notícia de que herdou uma casa de hospedagem. Pra vender o terreno, ele tem que partir pra outra cidade e embarca numa viagem de carruagem com um grupo pequeno de pessoas que tá querendo tentar a vida num lugar menos fim de mundo e com mais oportunidades. (até lembra vinhas da ira, pensando bem). Os passageiros são Russel, o cocheiro, o jovem ajudante de cocheiro e sua, também jovem, mulher mimada, uma mulher mais velha que perdeu o emprego na casa de hospedagem vendida e um casal mega ryco de origem desconhecida.

Na viagem, e com seus contratempos, já rola aquele sentimento de estranhamento e mundos diferentes, sendo Paul Newman o alienígena mor, com conceitos próprios de civilidade, ética e sensibilidade para com o próximo. Por vezes existe uma exigência para que ele se adeque ao padrão-homem-branco, algo que se mostra impossível pelas poucas palavras que ele solta, descobrindo o espectador que não é fácil a vida de índio, muito menos justa, diante de tipos feito aqueles com quem ele divide um espaço na carruagem.

A mulher que cuidava da hospedagem serve como contraponto para Newman, uma vez que questiona praticamente todas as ações dele, pragmáticas, duras e até egoístas. Ela me fez diminuir minha predileção inconteste por aquele homem, uma vez que não perdeu, incrivelmente, um senso humano de bondade, que já não se vê nele.

Muitos tempos atrás associava faroestes a um tipo de filme meio canastrão, aqueles bang-bangs com índios se ferrando e os caubóis sendo os mocinhos, terras sem lei no meio do nada, algo sempre muito trash. Assim que vi meu primeiro faroeste deu pra compreender que existe uma reca de filmes que vai bem além disso e reconta esse pedaço da história americana com outros olhos, cuidados e intenções. Vivendo e aprendendo.

Título original: Hombre
Diretor: Martin Ritt
Baseado no livro de Elmore Leonard, Roteiro de Irving Ravetch, Harriet Frank Jr.
Com: Paul Newman, Fredric March, Richard Boone

IMDB diz que é Western/Faroeste. Acrescento road movie. 
Quote:  “The dead are dead. You ought to bury them”. “I'm sure that's good advice. Trouble is, Mr. Russell, I think you feel the same way about the living”.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Projeto Zelig - Aquecimento no CineDureza com Vinhas da Ira

O CineClube mudou temporariamente de nome para CineDureza. Tamo numa leva de filmes que passam bem longe de deixar qualquer pessoa que os assiste confortável. Misérias da vida são ruins de viver e presenciar no dia a dia, e a gente ainda inventa de assisti-las na ficção (que mais parece realidade), tudo no conforto do sofá, comendo M&M de amendoim.

Vinhas da ira foi o escolhido da vez. Uma espécie de Morte e Vida Severina, só que lá nos Estados Unidos, décadas e décadas atrás. Uma família de retirantes, não da seca nordestina, mas bem que podia ser, sai de Oklahoma rumo a uma Califórnia promissora, depois de ser expulsa das terras arrendadas que viveu por toda a vida. Tem filme que é assim, que a gente começa na infelicidade com os personagens e vai seguindo pelas duas longas horas e perdendo as esperanças, junto com eles, até estar vivendo naquela miséria toda e desesperado pedindo de joelhos por um final feliz.

E é difícil vir um final desses. Quase impossível. Porque pra ser realista, mas realista mesmo, a gente sabe que é tipo a vida Severina de João Cabral de Melo Neto, é escapar de uma morte pra se deparar com outra. Não tem muito pra onde ir. São vidas e mais vidas que se encontram na miséria e que continuam andando, porque não dá pra desistir. No trajeto, numas das paradas do meio do caminho, uns coadjuvantes de posto de gasolina comentam que eles não podem ser seres humanos, porque seres humanos não viveriam naquelas condições. Mas nem tudo na vida é feito através de escolhas.

O personagem de Henry Fonda, Tom Joad, tenta segurar a família nessa empreitada e compreender não só a situação que estão vivendo, mas como solucionar, como sobreviver àquilo. Fiquei mais dividida entre a perfeição do seu personagem, da mãe ou do ex-pastor Casy, que saiu da vida eclesiástica por não saber de todas as respostas e precisar compreender mais da vida. Várias vezes ele passa uma ideia de um gênio filosófico e um doidinho que parece não saber o que está fazendo. Talvez sejam duas faces de uma mesma moeda.

Ando descobrindo que tô desacostumada com filmes que me surpreendam no desenvolvimento do enredo. Desses que as tramas fujam do lugar comum e deixem a pessoa numa ansiedade, sem saber o que vai acontecer, se vai dar tudo certo, tudo errado ou o que diabos é para se esperar. Não sei se é um sinal de que muitos filmes hoje em dia estão ficando repetitivos ou se os de antigamente é que sabiam ter algum tipo de originalidade (ou se é apenas porque estou filtrando bons filmes). Sei que eu não esperava a evolução desse, muito menos aonde conseguiu chegar. E eu gostei. Final feliz ou não feliz, eu realmente gostei.

Nome original: The Grapes of Wrath
De 1940
Diretor: John Ford
Baseado no livro de John Steinbeck, roteiro de Nunnaly Johnson
Com: Henry Fonda, Jane Darwell, John Carradine
IMDB diz que é drama. Eu digo que é depressão, dureza pura. 

Quote:  “I wouldn't pray just for a old man that's dead, 'cause he's all right. If I was to pray, I'd pray for folks that's alive and don't know which way to turn”.

Quote2: “You and me got sense. Them Okies got no sense and no feeling. They ain't human. Human being wouldn't live the way they do. Human being couldn't stand to be so miserable”.

Quote3: “Maybe there ain't no sin and there ain't no virtue, they's just what people does. Some things folks do is nice and some ain't so nice, and that's all any man's got a right to say”.

Quote4: “I been thinking about us, too, about our people living like pigs and good rich land layin' fallow. Or maybe one guy with a million acres and a hundred thousand farmers starvin'. And I been wonderin' if all our folks got together and yelled...”

Quote5: “Rich fellas come up an' they die, an' their kids ain't no good an' they die out. But we keep a'comin'. We're the people that live. They can't wipe us out; they can't lick us. We'll go on forever, Pa, 'cause we're the people”.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Projeto Zelig - Aquecendo no CineClube ou quando assisti a Ben Hur pela primeira vez

Sempre achei super sem graça um filme que vejo críticas ou-oito-ou-oitenta a respeito, que é aquele Matadores de velhinha dos irmãos Coen, com Tom Hanks no elenco. Tentei assistir a ele todo, mas não consegui (quem sabe ele não aparece mais na frente nessa empreitada?), vi pedaços e não deu pra mim. Nem sabia que era uma refilmagem de um britânico, até ter sido apresentada nesse CineClube que acabamos criando e entrando, meu tio e eu. A versão original, chamada de Quinteto da Morte, é bem divertida e parece fazer bem mais sentido a ambientação e toda a ingleszice da coisa. O humor negro, a história mais arrumadinha de um grupo de ladrões que usam desavisadamente uma senhôra correta para roubar um banco, fingindo que não passam de um quinteto musical. Até o humor que poderia ser pastelão ao extremo em qualquer outro filme americano funciona bem aqui, pelo menos para o meu tipo de risada. Mas é leso, que nem eu. Comédia não é pra todo mundo, isso é uma certeza cada vez maior que tenho a cada dia.

Nome original: The Ladykillers
De 1955
IMDB diz que é comédia/crime. Eu digo que é uma comédia simples britânica.
Com: Alec Guiness, Peter Sellers, Herbert Lom
Diretor: Alexander Mackendrick
Roteiro: Wiliam Rose


Ao falar em filmes britânicos que não precisavam ser refilmados, acabamos embarcando pra um que eu já tinha assistido antes, mas meu tio só teve acesso à vergonhosa e catastrófica versão americana: Morte no Funeral. Novamente eu vejo aquele padrão de humor inglês que faz de uma situação banal algo hilário, ao misturar uma boa dose de humor negro e situações estapafúrdias que conseguem dar completamente certo nele. Eu me lembro de ter rido horrores quando assisti da primeira vez, e ri novamente ao rever, especialmente porque é um basicão sem excessos. Por mais que possa não parecer compreensível para muitos, meu tio comentou comigo algo que compartilho, situações péssimas, tipo um funeral, por vezes carregam em si um ar de comicidade natural. É como se a linha entre o choro e o riso fosse tão tênue que é possível enxergar o humor até quando enterramos um ente querido. Talvez eu esteja reinando no politicamente incorreto dizendo isso, mas nem só de lágrimas foram marcados os enterros que já fui. Enfim, foi nesse filme que primeiro fui apresentada a Peter Dinklage, totals popular hoje em dia em Game of Thrones, então posso dar uma de hipster e dizer que já conhecia Tyrion before he was mainstream, haha.   

Nome original: Death at a Funeral (2007)
Com: Peter Dinklage, Mathew Macfadyen, Alan Tudyk
Diretor: Frank Oz
Roteiro: Dean Craig
IMDB coloca como comédia. Eu, como comédia-britânica com altas doses de humor negro
Quote: "Would you like a cup of tea, Sandra?" "Tea can do many things, Jane, but it can't bring back the dead.


E eis que na chegada de um novo membro ao cineclube, estreio meu primeiro grande clássico não visto, Ben-Hur. Eu não sei se a gente assistiu com a propriedade devida, mas eu não rejeitaria essa assistida nunca na minha vida. Começamos o filme já encharcados nas blasfêmias e nos adentrando no politico-religiosamente incorreto. Eu não sabia de jeito algum da história do filme e mal sei a parte bíblica da coisa. Entendi que era uma espécie de A Vida de Brian, de Monty Python, em que o personagem principal era conterrâneo de Jesus e as histórias se passavam paralelamente, com direito a algumas interações. Só que Ben-Hur não é humor, mas épico, né? Não ser humor é relativo, porque quando estão num mesmo cômodo três hereges, é inevitável não cair no frouxo de risos. E caímos bastante. Achei um bom filme, com suas quase-quatro longas horas de exibição (com direito a intervalo pra o xixi e refil de pipoca) e que espanta pela grandiosidade do feito tanto tempo atrás. Rola umas cenas de maquete (de piscina, disse meu irmão) no alto mar, umas religiosidades que se intensificam mais pro fim, as quais eu dispensaria, mas A cena da corrida de bigas é de maravilhar uma pessoa. Toda ela. Toda a história de Ben-Hur que faz a gente chegar àquele momento, na verdade, é muito boa. É um bom filme de vingança/volta por cima. Dei valor. Dei valor também pra o alto grau de homossexualidade que existe do começo ao fim do filme. Meu tio disse que as pessoas a tem como velada, mas pra mim aquilo é escancarado, viu? Num deu 5 minutos de filme e eu perguntei se era um romance gay. Bem, é isso, um a menos para a minha lista de pendências. Um a mais para o meu-eu mais sabido.  

Informações extras:
Nome original é Ben Hur
De 1959
IMDB diz que é aventura/drama. Eu digo: épico bíblico gay com uma boa trama de vingança.
Com: Charlton Heston, Jack Hawkins
Diretor: William Wyler
Baseado num livro de Lew Wallace, Roteiro de Karl Tunberg.
Quote: "There's this wild man in the desert named John who drowns people in water".

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Projeto Zelig - Introdução

Permaneço em constantes idas e vindas de desespero por não conseguir ter tempo de assistir a todos os filmes em cartaz, aos que já saíram há muito dos cinemas e, principalmente, àqueles lá atrás da minha vida que são, e também não são, clássicos incontestes e indispensáveis à vida de qualquer amante de filmes. Uma vez li um artigo que dizia não ser possível conhecer todos os lugares a serem visitados no mundo, ler todos os livros e grandes obras literárias, assistir a todos os filmes e terminar cada temporada das imperdíveis séries aclamadas pela crítica e pelo público. O autor do texto falava não haver tempo, em vida, para se gastar com tudo o que nos mandam e nos cobram para fazer. Pra não nos precipitarmos e aprendermos a diminuir as exigências que fazemos a nós mesmos.

Para pessoas desorganizadas como eu, há o terrível inimigo que é a falta de planejamento para alcançar, ao menos em grande parte, todos os belíssimos feitos da humanidade e desse mundo enorme e desconhecido. Pior que isso talvez só a minha eterna preguiça e grande frescura em esperar “o momento certo” ou a precisa vontade para deixar de ser essa pessoa tão... pra trás de todo o mundo conhecedor de tudo.

Decidi me dar uma oportunidade de corrigir esse erro. Vou começar uma das minhas maiores maratonas – e talvez a mais demorada, por conta do tempo que me parece cada vez mais curto – e começarei a voltar para o passado das obras cinematográficas. Esse projeto Zelig é uma variedade daquele filme Julie e Julia, só que sem a cozinha e com o cinema. Minha intenção inicial era/é utilizar uma ferramenta bastante imparcial em termos de escolha do que assistir, que é um calendário com 365 dias de “melhores filmes de todos os tempos”, que ganhei anos e anos atrás. Preciso só achar. Enquanto isso, aproveito o “cineclube” que tô fazendo com meu tio e uno o útil ao agradável para essa missão.

É bom ressaltar, de pronto, que estou atrasada vergonhosamente em muitos filmes tidos como obrigatórios nessa vida, então, rejeito julgamentos. É a vida, cada um vai atrás do que pode, quando pode. Até porque, tô fazendo isso pelo prazer de ser apresentada a coisas boas (e ruins, aposto) e pela necessidade que tenho de estar por dentro de todas as referências do mundo do entretenimento, e não pra sair falando que assisti e sou fera por isso.    

Como que num alinhamento perfeito com minha vontade de iniciar essa jornada e a oportunidade criada com meu tio, veio a necessária força motora da coragem: meu primeiro filme da lista, Zelig (daí o título). Eu, que adoro Woody Allen, jamais que tinha ouvido falar nesse documentário fake que ele fez lá pra trás, em preto e branco, bem realista, alternando entre o hilário e o genial. Na verdade, alternando não, essas duas características se complementam nesse filme. A história é a de Zelig, um homem que levou a sua insegurança às últimas consequências e, privado de identidade própria, passou a adquirir personalidades diversas de acordo com quem estivesse tratando. Entrando num leve spoiler inofensivo do filme, para justificar o motivo perfeito de ele ter me ajudado a estar nessa empreitada, me sinto, então, decidida a não cair nas armadilhas da vergonha pelo simples fato de “nunca ter lido Moby Dick”. Vamo que vamo, tô animada para o que virá.


Informações extras:
Nome original é Zelig mesmo.
De 1983
Roteiro e direção de Woody Allen
Estrelando Woody Allen com cabelos e uma Mia Farrow novinha (ironias do destino, vi os dois juntos pela primeira vez no mesmo ano em que descobri as amarguras em que vivem atualmente)
IMDB diz que é documentário/fantasia. Eu digo que é isso E uma comédia.
Quote: "The Ku Klux Klan, who saw Zelig as a Jew, that could turn himself into a Negro and an Indian, saw him as a triple threat".

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Das expectativas e das frustrações que elas trazem



Expectativas são as piores. Em um mundo ideal e onde nós próprios pudéssemos ser donos dos roteiros de nossas vidas tudo seria mais fácil e, de quebra, faria sentido (pelo menos para nós, os senhores dos nossos destinos). Não falo de necessariamente ter o poder de controlar eventos mundiais, ou locais, como conquistar a paz mundial ou apenas ganhar na loteria. Isso seria querer muito, vá lá. Mas dava para, pelo menos, os diálogos das nossas vidas conseguirem correr de acordo com o que a gente pensa? A quantidade de problemas que seriam resolvidos se todo o ensaio feito antes de discussões, de propostas, de acontecimentos em geral, é inimaginável.

O engraçado é que a gente sempre esquece que existe o outro lado. Que as chances das coisas acontecerem de acordo com o que queremos estão comprometidas desde o início, quando existe uma segunda pessoa na história. A revolta maior, às vezes maior que o catastrófico resultado em si, é a da falta de correspondência dos nossos diálogos imaginários com os diálogos reais, aqueles que realmente contam. Às vezes são dias que passamos trabalhando para “A conversa”. Com o namorado, com os pais, com o chefe. Tudo é tão claro, tudo é tão certo. Eu consigo me lembrar de todas as vezes em que mentalizei o que falava, o que eu ouvia em troca, até inventava situações em que as coisas dariam errado de uma certa forma. Mas no fim, no fim mesmo, eu conseguia ter a resposta final e tudo acabaria bem. O namorado me dava razão, meus pais me presenteavam com uma mesada, o chefe parava de me encher o saco.

Mas, infelizmente, me lembro de como as conversas acabaram acontecendo de fato, várias em que já na primeira resposta todo o script foi por água abaixo e eu ficava procurando dentro de mim alguma improvisação que fosse. Nunca fui boa no ao vivo. É como naquele filme, 500 dias com ela, em que o carinha é convidado para uma festa pela ex-namorada-amor-de-sua-vida e a gente vê dividida na tela a expectativa e a realidade. Eu quase gritava no cinema: eu sinto a sua dor!

Ah, a (falta de) delícia das frustrações. Como seria bom viver com um script, em que as falas do papel correspondessem – talvez com pequenas alterações, tudo bem, pode ser – ao que a gente espera delas. Talvez a vida acabasse sendo uma obra-prima, aclamada pela crítica e pelo público. Mas também teria grandes chances de se tornar aquele tédio de filme que a gente pede para sair. Vai saber.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A agenda

É hoje. Comprou a agenda do ano, uma caneta nova pra dar sorte e até uma outra só-por-segurança, caso acabasse perdendo feito todas as outras.  Arrumou a mesa, abriu na data em que estava e olhou para a página em branco. O incômodo anual de não ter comprado a agenda antes, evitando ter dias não preenchidos no mês de janeiro, surgiu. Divagou.

Voltou a si repetindo que dessa vez teria uma agenda para lembrar-lhe desse detalhe. Talvez fosse melhor anotar agora? Mas em que data? Qual é o dia em que as pessoas anotam quando devem comprar uma nova agenda? Quando as lojas começam a fabricar a do ano seguinte? E agora? Divagou.

Melhor começar por partes, do começo. Não adianta rabiscar lá pro fim se nem iniciou sua lista do presente. Sempre pensando no futuro e fugindo do momento em que estava, era típico dela. Não mais. Dessa vez iria anotar o que deveria pensar naquele dia, o que fazer, quando fazer. Nada de pensar no depois, sem concluir o agora. Uma coisa de cada vez, esse é o novo lema a ser seguido. Talvez devesse até ser colocado como título no início da agenda.  Preencher ele em uma das páginas em branco dos dias que já foram e não vão ser usados para outra coisa. Mas aquilo não era um diário, precisaria mesmo de um título? Diário tem título? O de Bridget Jones tinha. Acho que o do carinha de Segundas Intenções tinha. Os seus da adolescência não tinham. Precisava queimar aqueles diários. Divagou.

Depois colocaria na agenda um aviso pra enterrar as vergonhas do passado, disse pra si mesma. Tirou a tampa da caneta pra anotar a primeira missão do dia, hesitou. Começar pelo dia de hoje ou pelo dia de amanhã? Já passa das quatro, talvez seja melhor ignorar o dia de hoje. Talvez o dia de hoje tenha uma única tarefa: iniciar uma agenda. Já tinha perdido uma semana procurando a agenda ideal, ficou em dúvida entre uma comum e uma mais arrumadinha. Optou pelo meio termo, já que uma era sem graça pra carregar na bolsa e a outra teria pena de riscar. Acabaria servindo como um acessório, feito a do ano anterior, que ganhara. Pensou que deveria guardar aquela agenda, pra quando os anos coincidissem os dias, só esperava que não demorasse muito. Queria muito ter usado aquela agenda quando teve a oportunidade, ela preenchia todos os requisitos. Adorava tanto aquele presente. Por que diabos foi que não o usou? Típico. Típico. Divagou.

Virou a página para o dia seguinte, caneta em mãos. Qual tarefa colocar primeiro? Melhor fazer um rascunho em um papel solto. A primeira coisa escrita não poderia ser uma rasura ou um afazer qualquer. Nem sequer tinha pensado quais eram as coisas que permaneciam com pendências em sua vida. Eram tantas. Vivia apagando elas da memória, pra não se lembrar que esqueceu novamente de fazê-las. Agora, quando precisava delas, não as tinha. Provavelmente seu cérebro, acostumado com as frustrações, achou melhor não trabalhar. Concentrou-se. De repente, lembrava-se de todas. E de umas que nem sabia que já teve. Começou a chorar de arrependimento. Divagou.

Quando viu que manchou a folha com suas lágrimas, recuperou a compostura. Algo sobre não adiantar chorar sobre a agenda derramada. O leite. Estava cansada, mas decidida. Não importava o que o relógio dizia, a hora de dormir botaria na agenda depois. Seria organizada. “Estudar”. Sim. Essa seria a primeira tarefa. Sempre existiria esse afazer, ele deveria começar todos os dias. Já ouvira por aí que ninguém nunca para de estudar, é uma constante na vida. Estudar. Mas é algo tão amplo. Estudar, mas estudar o quê? Quantas horas? O dia todo? E os outros afazeres? Em que horário? Talvez devesse ter comprado a agenda que separava as horas do dia. Mas aquela era tão sem graça. Divagou.

Acordou. É hoje. 

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Essa nossa vida que é também a dos outros, Antônio Prata e amores platônicos

Uma das milhares de particularidades que vieram com a internet foi a perda da sensação de que se está sozinho no mundo. Não digo na solidão, sem mulher, homem, filhos, cachorro ou algo assim. Mas naquelas dúvidas e momentos que a gente achava que eram só nossos.

Assim, não foi bem a internet que trouxe isso, é verdade. Mas ela maximizou pro mundo problemas tão locais, curiosidades que pareciam tão precisamente ligadas ao mundinho particular de cada um de nós. E eu, sabendo disso tudo, compreendendo que não sou só eu que fico de cócoras no ar pra fazer xixi em banheiro público ou que almoçava em bolinhos de feijão-arroz-farofa quando criança, ainda me espanto quando descubro alguém roubando uma vivência minha.

Estava eu, linda (nem tanto), lendo o livro novo de Antônio Prata, que eu já amava desde que ele (e eu também) era pequeno simplesmente por ser filho (e protagonista de umas das minhas adoradas crônicas) do Mário Prata e me deparo com a descrição da meia que vai descendo do calcanhar até parar de envolver o pé por completo já dentro do sapato. Causando, enquanto isso, um machucão do atrito do tênis com a perna e a tentativa, inútil, de andar com o pé estirado pra ver se a meia se segura por algum tempo mais. Quantas vezes eu passei por isso! Quantos momentos mais eu compartilho, sem saber, com outras pessoas? A gente faz parte de um clube e não sabe.

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Ainda no assunto Antonio Prata, tava eu lendo uma dedicatória fofa que Gregório Duvivier fez pra ele em sua coluna e muito me identificando também, naquilo de ser amiga platônica de alguém. Não do Antônio Prata. Assim... também, talvez. Sabe quando a gente gosta tanto de alguém distante assim, desses da lista de idolatrados, ou até daquela turma da sala que faz o mero fato de existir parecer ser o máximo, que chega a pensar “Eu acho que ele ia gostar de me conhecer. A gente pensa igual. Se me ouvissem contando uma história, aposto que todo mundo ia rir e formaríamos parcerias incríveis”. Sou eu. Amando platonicamente as pessoas. Quase todas elas.

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Eu amo platonicamente tanta gente que tem nem graça. E não sei bem se quero sair do plano hipotético, talvez a decepção de dar tudo errado seria muito grande pro meu coraçãozinho iludido.  Vai que era tudo um grande engano melhorado pela imaginação? Melhor não. Melhor amar assim, de longe. E assim eu sigo amando até o carteiro, que aos meus olhos carrega histórias e amores, e nunca contas a pagar.